CONTRASTES

 em evolução espiritual

AMÉRICA PAOLIELLO MARQUES

11/1974

 

O homem que trabalha, luta e sofre, recebe da vida as mais contraditórias solicitações. Ora é seu orgulho que se vê ferido, mais adiante sua vaidade é momentaneamente incensada; aqui amigos o prestigiam e enaltecem generosamente além do que realmente seria de desejar, ali, na curva da estrada, o espera a deturpação de suas intenções mais puras e a crítica contundente. E sua sensibilidade desgasta-se no afã de tentar orientar-se sob o bombardeio de autêntica artilharia de vibrações desconexas, onde a paz sonhada parece impossível. Se participa, oscila, se se retrai, sente-se culpado e infeliz.

E a vida continua a transcorrer como um desafio, indiferente às “marés” emocionais que se manifestam no fluxo e refluxo da participação diária do homem junto ao panorama social. Que medidas utilizar para proporcionar no campo interno maior sentido e coerência?

Uns adotam a solução da agressividade, outros a da inibição. Alguns permanecem perplexos sentindo-se intensamente provados e procurando resistir para consolidar coerência interna a partir da meditação e da prece. E ainda há os que se deixam arrastar pelas circunstâncias, sem grande resistência…

Observando o panorama de contrastes representado pela vida, percebe-se que quanto mais sensível é o ser humano, mais as nuances desses contrastes se destacam. Que fazer para conferir sentido próprio a esse fluxo que se derrama sobre a nossa sensibilidade, sem o menor nexo aparente?

Uma filosofia espiritual confere sentido a essa permanente maré que baixa e sobe em fases alternadas de paz e de lutas. Porém, compreender-lhe o sentido não significa obter-lhe o controle. A destreza do navegador que sabe onde as correntes poderosas podem modificar o rumo da embarcação é exigida de quem deseja obter habilidade na arte de singrar os mares caprichosos próprios dos estados íntimos contrastantes.

Será preciso adquirir a serenidade do navegador experimentado e prudente que, em sua pequena nave, desafia o oceano profundo, porque inteligentemente aprendeu a prever as marés, a conhecer as correntezas e a não perder o rumo nas noites sem estrelas.

Em nós está o oceano, as correntes, as marés, as tempestades, mas está também o navegador, o vigia, o leme, a bússola e o sol da manhã… que pode raiar a qualquer momento, alegrando-nos com o seu despertar de belezas infinitas.

Sejamos seguros na busca o que nos propusemos. É tão bela a aventura de descobrir em nós novos mundos de realização espiritual! Nossa perseverança só poderá acrescentar com o tempo essa alegria inefável de ser com a Vida imortal do espírito, por mais cercados que estejamos pelos testemunhos absorventes imediatos.

Seja o nosso falar sim, sim; não, não. Seja o nosso pensamento o rumo certo, o nosso sentimento a bússola segura e a esplendorosa alegria de ser, a recompensa de sabermos orientar-nos entre os contrastes.

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