AUTENTICIDADE

 em auto-conhecimento, evolução espiritual

RAMATIS

América Paoliello Marques

 

No esforço espiritual de renovação há uma fase especialmente delicada. É o período caracterizado pela expansão cada vez maior das forças recônditas da alma.

Na fase anterior o espírito recebera instruções e exercitara-se na aplicação de princípios novos, dentro de normas preestabelecidas e crescera em realizações que requeriam autodomínio absoluto, como um treinamento para atividades posteriores, em âmbito mais largo. Um estado de imensas possibilidades fora esboçado no anseio de concretizar os sonhos de evolução. O trabalho íntimo criou uma tensão interior cada vez mais intensa, predispondo o discípulo a novos empreendimentos. O aprendiz sentiu um acúmulo de energias, de anseios puros de renovação. Sonhou com grandes transformações no futuro, buscando crescente armazenamento de idealismo, de conhecimentos e de energias.

A um determinado ponto dessa preparação espiritual vivida e sofrida intensamente por amor ao progresso, surge o momento propício para o teste a ser realizado e o discípulo começa a conhecer o valor exato da palavra autenticidade.

As energias acumuladas não podem mais ser retidas. Tanto a impossibilidade de inibir-se indefinidamente para efeito de autocorreção como a necessidade de expandir os novos valores assimilados, obrigam-no a exteriorizar a tensão interior, como uma fermentação que não pode ser contida. Os valores da autocontenção, que antes representavam uma técnica de progresso, perdem sua supremacia para ceder lugar a um novo processo de evolução. Chega o momento no qual o aprendiz será levado a controlar suas expansões como através de uma válvula de escape, regulada intermitentemente, para dar saída ao produto da fermentação que, por tanto tempo, cultivara como esperança de progresso.

O controle dessa válvula exigirá habilidade, adquirida pela experiência, pois os automatismos de contenção do negativismo, gradativamente, serão substituídos por reflexos de expansão positiva.

Porém, como é cheio de decepções o esforço para controlar a “válvula de escape” das reações que não podem mais ser tolhidas! Temos acompanhado as experiências corajosas e inevitáveis das almas ansiosas por uma autenticidade maior na escala dos valores espirituais. Sabemos o que representam de alívio e decepção. Parecerão estranhas essas afirmações, porém, é preciso entrar no mérito real do novo processo de evolução esboçado na alma que atinge a fase da autenticidade.

As expressões do ser nessa etapa tomam-se aparentemente involutivas, pois o que se exterioriza não obedece mais à seleção proposital visando à contenção minuciosa das expressões negativas. Uma força nova, como um gás produzido por longa fermentação, impulsiona para o exterior, indiscriminadamente, todas as expressões do ser. Porém, as antigas e indesejáveis tendências negativas surgirão à luz numa preciosa mistura com os valores novos adquiridos. Dessa combinação de valores surgirá a desejada autenticidade obtida pela neutralização possível dos valores indesejáveis ao contato das novas aquisições.

As reações íntimas do espírito submetido a esse novo processo, como numa fase mais adiantada de testes espirituais, são de alívio e decepção, alternadamente. O espírito que negara a si mesmo a expansão dos caracteres negativos, repudiara uma parte de seu ser, mas nem por isso ela deixara de existir. Vivera em estado de contenção e, por isso, a exteriorização controlada pela “válvula de escape” representa uma quebra de tensão, de certo modo um repouso merecido e necessário.

Entretanto, ao lado desse estado de relativa tranqüilidade íntima, encontra-se alerta o consciente esclarecido, a fornecer os valores positivos capazes de neutralizar, de certo modo, o negativismo longamente represado. E do sofrimento provocado pela identificação da pobreza do material subconsciente que se escapa, combinado às reações positivas que não chegam a preponderar totalmente sobre ele, surgem os “anticorpos” espirituais, como numa reação fisiológica, na qual o mal-estar provoca a mobilização geral dos recursos para a vitória dos ideais acalentados.

Oscilando entre a alegria interior semelhante à libertação e a decepção de se conhecer melhor, o espírito termina por fixar-se no meio termo representado pela autenticidade. E sente-se, de certa forma, consolado ao perceber que, embora sua situação presente seja menos lisonjeira é mais autêntica, sem por isso conseguir interferir no desejo de progresso.

É preciso não confundir autenticidade com liberdade desordenada ou com irresponsabilidade. Ao contrário do que pode parecer, há uma forma muito mais eficiente e perfeita de autocontrole nessa expansão intencional do que nos hábitos antigos de contenção, estabelecidos sob a forma de automatismos.

É preciso estabelecer bem esse conceito para afastar os receios que a autenticidade muitas vezes desperta no discípulo que parece caminhar sem apoio. Essa sensação é causada pelo fato de não poder contar, durante a transição, com os automatismos psicológicos da fase anterior, que serão superados por não acompanharem o grau de evolução alcançado. Na busca da autenticidade, há necessidade permanente de improvisação. Esse fato, além de facilitar as modificações que se fazem necessárias, favorece a formação de um hábito salutar de autoconfiança, aliado à humildade de estar sempre retificando os próprios erros.

Perdoai-vos a vós mesmos como o Senhor vos perdoa. Sede generosos com o vosso pequenino ser que reclama paciência para evoluir. Não vos tortureis usando para convosco uma intransigência imperdoável. Não devemos dar vazão ao orgulho numa contenção excessiva de nossa natureza. O Senhor é generoso, por que não usaremos nós as mesmas medidas? A paciência na correção dos próprios males revela um grau superior de humildade, que reconhece as limitações do próprio espírito, perdoa-o e prossegue na tarefa de educação espiritual com amor, benevolência e tolerância para consigo mesmo.

Autênticos, progrediremos em terreno firme. Nossas conquistas não serão fictícias, não dependerão do artificialismo que, mesmo quando bem-intencionado, provoca reações paralelas de desconforto, solidão, desajustamento.

Sejamos tal qual somos diante de Jesus, amando-O e seguindo-O, no limite de nossas possibilidades.

Paz, Amor e Alegria aos vossos espíritos.

 

Vosso servo,

Ramatís

Fonte: Da obra “Evangelho, Psicologia e Ioga”, capítulo 8.

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