RESPONSABILIDADE
NICANOR
América Paoliello Marques
Da obra “A Rosa e o Espinho” (Parte 2 -Capítulo 5)
1 Colhendo o fruto da árvore do bem e do mal no Paraíso, nossos ancestrais simbólicos tomaram sobre si a responsabilidade de uma tempestade de sofrimento que transmitiriam aos seus descendentes. No entanto, ficou bem definida, naquela situação descrita na Bíblia, em que a serpente tenta, que o casal optou, por livre e espontânea vontade.
2 Hoje, aquele pequeno círculo de personagens se ampliou, porém, as características fundamentais permanecem. Se uma nova Bíblia for escrita, dir-se-á, com propriedade, que a serpente continuou a tentar e os frutos a serem colhidos inadvertidamente.
3 Entretanto, nossos ancestrais bíblicos possuíam, ainda, muito vívida na memória o eco da Voz do Senhor e envergonharam-se, segundo diz o relato. No ruído ensurdecedor que se produziu com a multiplicação infinita dos “tentados” e dos “tentadores”, aquela voz interior da consciência tornou-se inaudível e os próprios interessados observam-se estupefatos, em busca da causa de suas atribulações.
4 Por um processo psíquico, também milenar, desde que a voz interior deixou de ser ouvida, o que mais ressalta aos seus olhos é o comportamento desavisado do seu próximo, que ele observa com facilidade, o mesmo não sucedendo em relação a si mesmo. Incapaz de fixar-se na auto-análise em profundidade, a maioria dos homens “atira a primeira pedra”, esquecida da advertência do Mestre.
5 Um mecanismo tão simples seria necessário para que as respectivas responsabilidades fossem definidas e tantos males evitados!
6 Porém, da mesma forma que Adão e Eva retiraram-se envergonhados do Paraíso, o homem moderno retira-se, apressado, do contato mais intimo com sua consciência, representante legítima da Voz do Senhor. Veste-se, precariamente, com as “coberturas” mentais e emocionais que consegue improvisar e julga-se seguro para afastar-se do Paraíso, onde seria interpelado, novamente, por suas atitudes inadequadas.
7 O “tentador” tem ganho de causa temporário. As criaturas não se encontram mais em inocente nudez diante do Eterno. Estarão elas condenadas a penas eternas?
8 Dependerá de saberem “despir-se” novamente e suportar o exame consciencial desagradável do reencontro com as criações espirituais alimentadas.
9 A tão apregoada psicanálise é um início de auto-observação dos efeitos maléficos do fruto proibido, ou seja, do mau emprego das faculdades superiores do espírito eterno. Porém, em função de que valores realizar a renovação após o reconhecimento dos prejuízos representados pelos desajustes interiores? Não bastará analisar a situação caótica do espírito.
10 Para harmonizá-lo, será preciso saber em que sentido reconstrui-lo e este sentido deverá ser identificado com segurança, como a bússola magnética que se imanta aos pólos.
11 A Responsabilidade sentida em toda a extensão de seus valores, situando o espírito na cadeia de ações e reações de seus atos presentes e passados, mostrará, com segurança, a estrada a ser trilhada no retorno ao Paraíso perdido da consciência que se coloca em dia com suas necessidades de renovação.
12 Se Adão acusasse Eva e esta ao “tentador” por seus descaminhos, nem por isso estariam livres das consequências de seus atos. Importa, pois, aos homens, sinceramente empenhados no retorno à paz interior, remover as formações compactas das incompreensões que cada qual colocou, livremente, diante dos próprios pés e, também livremente, retornar à caminhada produtiva.
13 Chegará o momento no qual o homem, pela maturidade, compreenderá que não são os sistemas políticos, religiosos ou sociais que os detêm, mas sim seu próprio condicionamento negativo em relação àquela voz interior que o adverte quanto aos frutos que deve ou não colher. As árvores do Paraíso da Vida são diversas. Reconhecer as que são incapazes de atender, no momento, às suas próprias necessidades evolutivas, representa o exercício da responsabilidade, pela qual responderemos, individualmente, com nosso bem-estar ou com a inquietação intensificada pela escolha mal realizada.
14 O homem é espiritualmente livre. Seu mundo interior não será perturbado, se por ele souber zelar. Vossa paz não será acrescentada por vos arremessardes com violência contra o meio hostil. Ele não vos atingirá, mesmo quando operardes cercados pelas condições mais ruinosas e decadentes da sociedade, se vossa ação, equilibrada e segura junto ao ambiente, vos imunizar interiormente contra os venenos desagregadores do ódio. Na maior desarmonia externa, característica da fase involutiva do planeta em transição, vossa consciência pode vibrar em luminosa serenidade pela ação bem conduzida, que não se omite, mas que, também, não se deixa arrastar.
15 Que vossos compromissos principais sejam com aquela voz interior; que vos exerciteis em voltar a ouvi-la para poderdes sentir que, aos poucos, já não haverá mais a vergonha que vos levará a cobrir vossa alma diante do Senhor.
16 Penetremos, novamente, o Paraíso, onde assumiremos a responsabilidade declarada de nossos atos, empenhados na reabilitação diante do Senhor, pois só nos sentimos expulsos do Seu convívio pela responsabilidade que pesava em nossa consciência e que nos acusava de indignidade. Ele, porém, é Pai generoso. Sua presença não deixou, nunca, de nos acompanhar. Retiremos de nossa alma os véus da culpa e aprendamos que a maior expressão do Amor é abraçarmos, com responsabilidade, nossa cruz e seguir o Mestre até à Ressurreição.
Notas:
1 ESTUDO EM GRUPO – Este texto é o estudo do Grupo Reflexões América Paoliello Marques (GR_APM) de 6/9/2026, domingo, às 8:30. Mais informações no Instagram https://www.instagram.com/america.p.marques/
2 AUDIO DESTE TEXTO- https://open.spotify.com/episode/7M3eVynkFK72WBe6d8uKzA?si=of-0ZiG2R4qGXElP33Jsdw&utm_source=whatsapp&nd=1&dlsi=9b475b571c514e13

