NA SUBIDA (1)

 em Amor, auto-conhecimento, evolução espiritual

NICANOR /AMÉRICA PAOLIELLO MARQUES

 

No caminho evolutivo, há que refrear a curiosidade e desenvolver o sentimento. Em simbolismo bastante expressivo, comparam-se as duas asas do ser que deseja elevar-se às alturas, ao conhecimento e ao amor; ambas devem possuir igual robustez para que os voos se façam de forma harmoniosa e feliz. De nada nos serviria desenvolver uma deixando a outra atrofiada.

A quem nos arguisse sobre as condições de progresso, nada mais poderíamos responder. Todas as vezes em que for sentida a dificuldade de assimilar as verdades eternas, procure-se a razão na atrofia de uma das forças constitutivas deste equilíbrio necessário.

O homem possui sensibilidade e razão. Sejam quais forem as denominações que se deem a estes dois aspectos fundamentais do ser, há que trazê-los em constante esforço de equiparação.

A pesquisa excessiva atrai a concentração do pensamento e, consequentemente, das energias criadoras, para a parte intelectual do ser, deixando-o deficiente no que se refere à harmonização com a vida, no contato com os semelhantes. Age como a criança aplicada em seus estudos, que agrada ao mestre e deslumbra seus companheiros. É o aluno ideal, mas não um ser harmonizado. Construiu para si uma torre, porém esqueceu-se da escada que o levaria ao solo, encontrando-se prisioneiro por imprevidência própria. Quando a vida o obriga a entrar em contato com os problemas de todos os dias sente que o estão constrangendo a saltar de sua torre, em perigo de fraturar-se desastrosamente.

5 A realização espiritual pode ser representada numa pirâmide de base triangular, por cujo vértice superior peneira generosamente a luz, quando o pensamento se volta para as altas investigações espirituais, interessado no domínio do equilíbrio representado pelo binômio razão-sentimento, base sólida da formação harmoniosa do ser. (2)

6 A luz que se estende pelo interior da pirâmide da realização íntima, chega com o tempo a mostrar, em toda a sua beleza, o triângulo da base, cujos vértices estão constituídos pelas virtudes sustentadoras do espírito: fé, esperança e caridade.

7 Há, porém, necessidade de que a luz chegue a atingir a base do ser através do trabalho, encarado como condição feliz de atividade, dinâmica harmoniosa do espírito voltado para o Bem.

8 Entretanto, conhecido o valor da luz que lhe penetra o ser, geralmente entra a criatura a amá-la de tal forma que esquece de utilizá-la, entretido em investigar-lhe as origens. Sucede então que se forma, a meia altura do eixo de sustentação da pirâmide, que neste caso simboliza a personalidade, uma intercessão produzida pelo plano mental da curiosidade, que projeta sombra sobre a base, obscurecendo os sentimentos, por estar a atenção exclusivamente dedicada a investigar. Produz-se assim a retenção das claridades que penetravam pelo ápice, pois somente a parte mediana superior encontra-se disponível.

9 Em breve, saturado em sua capacidade de receber a força que emana do Alto, o espírito cristaliza-se e estaciona, até que, identificando o processo de paralisação, resolve utilizar a quantidade de luz que já pode absorver. Retira o plano intercessor e permite que se Ilumine a base de sua individualidade, produzindo-se, em consequência, o fenômeno lógico de uma abertura de espaço. Descida que seja a energia assimilada, haverá lugar para nova entrada de força superior. Entretanto, somente poderá receber novas claridades, quando tiver permitido que a luz assimilada penetre totalmente as bases de sua personalidade eterna.

10 Frequentemente, o discípulo desejoso de progresso familiariza-se perfeitamente com a teoria de uma  escola  espiritualista,  conhecendo  os  termos exatos para cada fenômeno e as características com que se apresentam aos olhos do observador. Está intelectualmente preparado. Chega o momento da experiência e ordenam-lhe: – “Age!”. Sabe o que deve fazer, porém o conjunto da situação de fato o paralisa, porque encontra-se deficiente na produção do amor, que impulsiona o ser a realizar com esquecimento de si mesmo. Estudou, pormenorizadamente, o panorama de ação a que se submeteria; analisou-o demasiadamente, e perdeu o dom de sintetizar, o que o impede de ver a única força que liga todos os elos da existência – o Amor. Perdeu a noção do conjunto, por prender-se aos detalhes como se, investigando a tessitura de uma flor, ficasse privado do espetáculo do belo jardim em que se situa. Amando a vida mais alta, deseja entendê-la e angustia-se, perdendo a oportunidade de senti-la nos mais insignificantes ângulos da existência. Certo que é inebriante a alegria de pesquisar verdades eternas, mas é preciso estacionar diante das investigações temporariamente irrealizáveis, pois antes de mais nada, exige-se de quem sabe, o dom do equilíbrio na aplicação adequada das verdades que já conhece.

11 Abriram-se as portas dos templos onde se cultivava a paz através do esclarecimento e os discípulos são enviados a toda parte com a missão de demonstrar Amor. Nesta fase da vida planetária, os conhecimentos elevados serão úteis na proporção em que influírem na conduta de renúncia a benefício do conjunto. Em nenhuma ocasião como agora esteve tão procurado e tão necessário, o sentimento do Amor que a inspira. A maioria dos seres que não tiver mais tempo para uma assimilação demorada da Verdade através do intelecto, poderá ser atraída a ela por corações que transfundam Amor, força que coage docemente à renovação interior.

12 A sensibilidade humana é passível de evolução infinita através do intelecto; entretanto, precisamos buscar, no momento, a equiparação da Humanidade em um nível médio de evolução. Para isso, um divino intercâmbio se faz necessário: quem recebeu, deve dar para tornar-se digno de mais receber. Se tendes conhecimentos e eles não vos proporcionam a paz, meditai que a insatisfação não vem do pouco conhecer. Vem do realizar menos do que seríamos capazes. Se deixarmos para trás a investigação e nos entretivermos na realização despreocupada do Bem, a alegria nascerá espontaneamente.

13 Não fazemos o panegírico da ignorância nem do dogmatismo. Porém, pela ordem natural que nos faz caminhar do menor para o maior, compreendemos que há necessidade de investigar profundamente, em primeiro lugar, qual a vontade do Senhor em relação a nós, sentindo-Lhe os desígnios em relação ao nosso pequeno cosmo interior, para que, postos em dia fielmente com a compreensão que nos compete, tenhamos cabedal suficiente para interrogá-Lo em relação a este ou aquele detalhe de Sua Obra Grandiosa.

14 Não nos cabe conhecer a estrada antes de sabermos quais as nossas possibilidades para percorrê-la. A cada quilômetro perlustrado, receberemos os esclarecimentos necessários à nossa estabilidade. E no caminho evolutivo, se levarmos nos olhos lentes demasiadamente fortes, certamente sofreremos quedas causadas pelo desequilíbrio entre o raio visual que possuímos e a extensão de nossas passadas. Viveremos em expectativa ansiosa, por não estarmos certos da capacidade de ajustar-nos ao que conhecemos. Ao contrário, se olharmos naturalmente à volta, tudo nos parecerá muito bem proporcionado. As verdades para as quais estivermos amadurecidos, ser-nos-ão reveladas numa adição natural que não nos transformará o aspecto exterior, nem nos incapacitará para a fusão necessária com a vida comum. Livres da ação seccionadora da investigação acirrada, permitiremos que as energias criadoras que o Senhor nos envia se expandam até as bases de nosso espírito.

15 Amaremos a verdade sabendo que seu mais belo atributo é o imperativo de servir e amar. Seremos deuses na proporção direta em que construirmos o Bem e nesta certeza encontraremos a esperança de aproximar-nos, cada vez mais, de uma compreensão elevada da vida, vivendo-a mais do que investigando-a.

16 Vibremos de alegria nas compreensões eternas, mas libertemo-nos, constantemente, da interferência indesejável dos planos intercessórios da luz, que se colocam dentro de nós, sob a forma de situações privilegiadas de entendimento e razão.

17 Deu-nos Jesus a prova máxima de beleza e elevação espiritual que devemos procurar alcançar, quando lavou os pés dos discípulos e renunciou a reagir diante da injustiça. Somente para destacar Sua grandeza contribuíram gestos que não seriam copiados pelos que se julgam superiores a Ele, mas que não sentem a extensão do Seu Amor.

18 Quem O seguir, de mais nada precisará. A alma iluminada pelo amor que Ele pregou atrai a si partículas desta vibração divina e é capaz de clarear os próprios caminhos com esta simples irradiação. Através do intelecto poderemos forçar vagarosamente a elevação e subir, palmo a palmo, a encosta da grande montanha da realização espiritual. A cada novo passo porém, apesar de nos sentirmos recompensados, necessitaremos recompor as energias através do trato ameno dos que nos cercam do carinho produzido pelo Amor e enquanto não estivermos familiarizados com as vibrações do sentimento puro que nos cerca em cada degrau evolutivo, será impossível nova caminhada.

18a Com a alma inflamada pelo Amor, a subida parecer-nos-á mais fácil, pois sucederá como se houvesse, no topo da montanha, um poderoso imã, em cuja faixa de atração estivéssemos permanentemente envolvidos. Esta força abrir-nos-á uma receptividade espantosa para a compreensão da paisagem externa. Mesmo sem conhecermos tecnicamente as designações que assinalam a estrada da vida espiritual, poderemos entendê-las porque haverá uma luz a circular entre nós e o Criador, tornando tudo mais claro e não sentiremos dificuldades em afinarmos com os planos evolutivos de que nos aproximarmos.

19 A própria força da vibração do amor encarregar-se-á de manter-nos em constante renovação automática.

20 As estradas do Amor e do Saber que nos levam ao cume da montanha da espiritualidade parecem muitas vezes paralelas, mas na verdade são convergentes. Há um ligeiro desvio na estrada dos que se entregam, com exclusividade, ao estudo. Quando identificam o engano e começam a aproximar-se insensivelmente da direção certa que os atrairá ao ponto culminante da montanha, percebem que muito mais importante do que compreender, é sentir, vibrando nos mais doces enlevos que o Senhor nos pode proporcionar. No desvio de sua rota encontrarão outros que, atingindo o clímax da caminhada intelectiva, sofreram a mesma transformação benéfica.

21 Unindo-se aos que subiam a montanha por caminhos diferentes, admirar-se-ão de que, tendo iniciado de pontos tão afastados, pudessem encontrar-se a meio caminho. Os que chegarem através da razão, mostrar-se-ão fatigados, e risonhos os que vierem através do amor. Todos lutaram, porém estes últimos levaram a vantagem de ajustar primeiro o coração, acomodando-se ao caminho, para então compreendê-lo. Os outros, compreendendo sem saberem acomodar-se, muito sofreram e foram feridos. Abraçando-se, fundir-se-ão em vibrações de harmonia e, renovados, caminharão para o Alto.

22 Quem poderá então detê-los? Já poderão voar, pois terão desenvolvidas as duas asas da espiritualidade! Não precisarão mais pisar o solo, ferindo os pés. Estarão realizados e felizes.

23 Que o Senhor esteja convosco e que a toda a Humanidade seja possível compreender e sentir quão belos são os caminhos que percorre!

 

(1)Da obra TRANSMUTAÇÃO DE SENTIMENTOS, 2018 (pg. 39-46) . Texto publicado originalmente na obra “Mensagens do Grande Coração” (1961) – Parte 1 – Capítulo 15.

Esta mensagem de Nicanor à América Paoliello Marques,  “NA SUBIDA” , é o texto programado para a segunda reunião online do (1) do Grupo Reflexões América Paoliello Marques, que será realizada em 5/7/22 (terça, às 20:00). É importante a leitura e reflexão prévia dos participantes do grupo, à luz de suas vivências, visando tornar o encontro rico e dinâmico.

(2) NOTA DO AUTOR ESPIRITUAL – Aqueles que costumam repudiar a expressão sentimento por confundi-la com sentimentalismo, poderão substituí-la com vantagens por sensibilidade, característica permanente do espírito em todos os graus evolutivos.

 

 

Postagens Recentes

Deixe um Comentário