MEDIUNIDADE

 em evolução espiritual, Mediunidade

MEDIUNIDADE[1]

 NICANOR

 América Paoliello Marques

  

1  É mais importante possuir convicções próprias e corretas do que possuir mediunidade[2]. É mais importante estar sinceramente empenhado na busca da Verdade do que ser capaz de produzir fenômenos incomuns, por mais preciosos que estes sejam. O médium, sem prejuízo de sua função, deve ser conduzido à sua autorrealização. Não poderá ser bom médium se não der primazia ao trabalho de autorrenovação, se nele não empenhar todos os recursos e se não crer em si como indivíduo.

2  A mediunidade, por ser tão preciosa, não pode obscurecer a tarefa principal do espírito que é o encontro consigo mesmo. A natureza não dá saltos. Os milagres não existem. O médium que se fixar no aspecto miraculoso e incomum dos fenômenos de que participa, colocando em segundo plano sua autoafirmação, como espírito eterno, lamentavelmente, verá declinar suas faculdades para o terreno da rotina, quando não da vulgaridade e da superstição.

3  A mediunidade é uma bênção para a humanidade aflita que necessita de luz, mas cumpre sua finalidade integralmente quando consegue conduzir o espírito do medianeiro à realização plena de sua individualidade eterna. Ela constitui um acidente capaz de estimular o crescimento interior das potencialidades latentes do espírito encarnado, que não deve se limitar à função de uma varinha mágica nas mãos de seus amigos espirituais. Sua posição deve ser a de um instrumento consciente de suas atribuições, as quais precisa, na medida do possível, tornar autônomas.

4 Ao incorporar ao seu acervo espiritual atitudes e convicções adquiridas no contato com seus orientadores espirituais, o médium toma-se, realmente, a antena viva e afinada que age, não por ação coercitiva do plano espiritual, mas por sintonia real com os objetivos visados pelas esferas espirituais que o orientam.

5 Felizes nos sentimos quando percebemos que já não nos é necessário conduzir e nem mesmo sugerir as providências capazes de garantir a vitória do bem na esfera de ação de nossos amigos encarnados. Cumpre-se nossa tarefa integralmente quando a tutela que exercíamos sobre nossos irmãos encarnados é, por força de seu progresso, transferida para a esfera da Intuição Pura, desenvolvida no hábito salutar da meditação e da realização com o Senhor.

6  Não queremos autômatos nem tutelados. Desejamos amigos na Terra, capazes de realizarem conosco todo o bem que seja de desejar em cada momento da evolução. Desejamos que sejam capazes de obter o próprio suprimento de forças em suas reservas espirituais e que a nós só reste o simples papel de assessores. Eis que nos encontramos tranqüilos quando podemos confiar na formação adequada de médiuns estudiosos e aplicados. Seria quase uma intromissão indébita e prejudicial conservar nossos irmãos encarnados sob tutela indefinidamente, após longa preparação na Terra e no Espaço.

7  Agradecemos ao Senhor quando podemos en- tregar-Lhe a tarefa de formação de nossos médiuns cumprida a ponto de nossa interferência constante ser desnecessária e já prejudicial à consolidação dos valores individuais.

8  Nessa fase serão consolidadas as conquistas alcançadas, não sem sombra de enganos, pois isto é impossível em qualquer etapa espiritual, mas com a segurança que nos garante a impossibilidade de distorções, já inadmissíveis quando o médium progrediu da fase fenomênica propriamente dita para a consolidação de valores firmemente estabelecidos em seu espírito.

9  A mediunidade é um instrumento de afirmação espiritual através da consolidação dos princípios eternos fundamentais. Obtida esta, o instrumento não deixará de existir, porém entrará na fase final, aquela que era visada e foi alcançada. Já não haverá necessidade de interferências evidentes e constantes do plano espiritual externo, pois o campo espiritual interno estará habilitado a encontrar, por seus próprios recursos, os elementos da sadia concretização do bem.

10  Mediunidade, então, será sinônimo de planos interpenetrados no campo mais elevado do espírito, deixando de ser fenômeno incomum e passageiro para constituir-se numa forma de ser do medianeiro fiel e afinado com as esferas a que se liga na Espiritualidade.

11  Não somos capazes de intromissões indébitas, como afirmam certos setores espiritualistas. Sabemos preparar o médium e sabemos quando devemos permitir-lhe plena liberdade de ação. O teste verdadeiro da eficiência da mediunidade é realizado no momento em que a formação do médium é considerada pronta. Ele próprio é capaz de sentir a época na qual tal fenômeno se dá. Assim como sentiu quando deveria apassivar-se, percebe, sem sombra de dúvida, quando precisa afirmar-se sozinho. Se assim não fosse, de nada lhe valeria o trabalho penoso e prolongado de preparação de sua mediunidade. Poucos têm sido os médiuns que resistem valorosamente a todas as provas de sua formação para chegarem a ser, na Terra, representantes autorizados do plano espiritual.

12  Porém, essa é a fase mais importante do trabalho mediúnico. Nela o médium poderá continuar a produzir mediunicamente, porém suas realizações individuais serão de maior peso para sua evolução do que sua tarefa mediúnica fenomênica propriamente dita. Esta é, a nosso ver, a ‘mais preciosa forma de mediunidade, que podemos denominar mediunidade direta, pois se firma no intercâmbio entre a alma e a Vida, independente de tutela imediata de seres desencarnados[3]. É o produto da afinação obtida entre a alma e a Criação. Essa sintonia lhe garante então maior ligação com as vibrações do Amor Crístico, com todos os espíritos que nessa faixa se situam e que continuarão a procurar contato cada vez mais seguro com a alma que souber crescer em grau de espiritualização com o Senhor da Vinha, ao qual todos os recursos pertencem.

13  A mediunidade integral e direta precisa ser a meta de todas as almas empenhadas na renovação geral da humanidade terrena.

 

 

[1]   Parte 1 – Capítulo 5 do livro “A Rosa e o Espinho” (Nicanor, América P. Marques, 1974). Publicado também na obra-síntese “Transmutação dos Sentimentos” (América P. Marques, 2018, p139-142)

[2]   No livro PSICOLOGIA ABISSAL (América P. Marques, 1984) a mediunidade está assim descrita por Kardec: “Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos é, por esse fato, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, um privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns. Todavia, usualmente, assim só se qualificam aqueles em que a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes, de certa intensidade, o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva. É de notar-se que essa faculdade não se revela da mesma maneira em todos. Geralmente, os médiuns têm uma aptidão especial para os fenômenos desta ou daquela ordem, donde resulta que formam tantas variedades, quantas são as espécies de manifestações” (Kardec, 1955, p. 166).

[3]     A que denominamos mediunidade indireta.

 

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